BEATIFICAÇÃO SANTA TEREZA DE LOS ANDES
 

Cerimônia de Beatificação
DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NA CERIMÔNIA DE BEATIFICAÇÃO

"Agora subsistem estas três: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é a caridade"( 1Cor 13,13). Estas palavras de São Paulo, com as quais ele termina o seu 'hino à caridade', ressoam com tons novos nesta celebração eucarística.

Sim, 'a maior delas é a caridade'. São palavras que se fizeram vida na pessoa da Irmã Teresa de los Andes, que hoje tive a graça e a alegria de proclamar Beata. Hoje, amadíssimos irmãos e irmãs de Santiago e do Chile, é um grande dia na vida da vossa Igreja e da vossa Nação.

Filha predileta da Igreja chilena, Ir. Teresa é elevada às honras dos altares na pátria que a viu nascer. O povo de Deus peregrino encontra nela um guia para o seu caminhar para a meta da Jerusalém celestial. Desejo dirigir a minha cordial saudação aos irmãos no Episcopado aqui presentes, em particular ao Senhor Cardeal Arcebispo desta querida Arquidiocese. Saúdo de igual modo as autoridades, o Prepósito Geral dos Carmelitas Descalços, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas e os amadíssimos fiéis desta Igreja que peregrina no Chile, e que hoje se alegra à volta de uma jovem carmelita, modelo de virtude.

Movidos pela fé, pela esperança e pela caridade, caminhamos como peregrinos para Deus que é Amor, e a nossa alma enche-se de alegria ao comprovar que esta peregrinação espiritual tem a sua coroa na glória, à qual Cristo nosso Senhor deseja conduzir todos nós. Escutávamos no início um breve perfil biográfico da Ir. Teresa de los Andes, uma jovem chilena, símbolo da fé e da bondade deste povo; uma carmelita descalça, arrebatada para o Reino dos céus na primavera da sua vida; primícias de santidade do Carmelo Teresiano na América Latina.

Nos seus breves escritos autobiográficos ela deixou-nos o testamento de uma santidade simples e acessível, centrada no essencial do Evangelho: amar, sofrer, orar, servir. O segredo da sua vida, voltada toda para a santidade, está contido numa familiaridade com Cristo, presente e amigo, e com a Virgem Maria, Mãe próxima e amorosa.

Teresa de los Andes experimentou desde a mais tenra idade a graça da comunhão com Cristo, a qual se foi desenvolvendo progressivamente nela com o encanto da sua juventude, cheia de vitalidade e de jovialidade, na qual não faltou, como filha do seu tempo, o sentido do sadio entretenimento e do desporto, o contato com a natureza. Era uma jovem alegre e dinâmica; uma jovem aberta a Deus. E Deus fez florescer nela o amor cristão, aberto e profundamente sensível aos problemas da sua pátria e às aspirações da Igreja.

O segredo da sua perfeição, como não podia deixar de ser, é o amor. Um grande amor a Cristo, por quem ela se sente fascinada e que a leva a consagrar-se a Ele para sempre, e a participar no mistério da Sua paixão e da Sua Ressurreição. Ao mesmo tempo, sente um amor filial à Virgem Maria que a estimula a imitar as suas virtudes.

Para ela Deus é alegria infinita. É este o novo hino do amor cristão que brota espontâneo da alma desta jovem chilena, em cujo rosto glorificado divisamos a graça da transformação em Cristo, em virtude desse amor que é compreensivo, serviçal, humilde, paciente. Um amor que não destrói os valores humanos, mas os eleva e transfigura.

Sim. Como diz Teresa de los Andes: "Jesus é a nossa alegria infinita". Por isso a nova Beata é um modelo de vida evangélica para a juventude do Chile. Ela, que chegou a praticar com heroísmo as virtudes cristãs, transcorreu os anos da sua adolescência e da sua juventude nos âmbitos normais de uma jovem do seu tempo: na sua vida de cada dia ela exercitou-se na piedade e na colaboração eclesial. como catequista, na escola, entre os seus amigos e amigas, nas obras de misericórdia, nos momentos de entretenimento e de recreação.

A sua vida exemplar reveste-se de humanismo cristão, com a marca inconfundível da inteligência viva, da delicadeza esmerada, da capacidade criadora do povo chileno. Nela se expressa a alma e o caráter da vossa pátria e a perene juventude do Evangelho de Cristo que entusiasmou e atraiu Ir. Teresa de los Andes.

A Igreja proclama hoje Beata Irmã Teresa de los Andes e, a partir deste dia, venera-a e invoca-a com este título. Beata, ditosa, feliz, é a pessoa que fez das bem-aventuranças evangélicas o centro da sua vida; que as viveu com intensidade heróica.
Desta forma, a nossa Beata, tendo posto em prática as bem-aventuranças, encarnou na sua vida o exemplo mais perfeito da santidade que é Cristo.

Com efeito, Teresa de los Andes irradia a felicidade da pobreza em espírito, a bondade e a mansidão do seu coração, o sofrimento escondido com que Deus purifica e santifica os seus eleitos. Ela tem fome e sede de justiça, ama a Deus intensamente e quer que Deus seja amado e conhecido, por todos. Deus a fez misericordiosa na sua imolação total pelos sacerdotes e pela conversão dos pecados; pacífica e conciliadora, semeando à sua volta a compreensão e o diálogo.

Nela se reflete, sobretudo, a bem-aventurança da pureza de coração. De fato, ela entregou-se a Cristo totalmente e Jesus lhe abriu os olhos à contemplação dos seus mistérios.Deus concedeu-lhe, além disso, experimentar a satisfação sublime de viver antecipadamente na terra a bem-aventurança e a alegria da comunhão com Deus no serviço ao próximo.Esta é a sua mensagem: Só em Deus se encontra a felicidade; só Deus é alegria infinita. Jovem

chilena, jovem latino-americana, descobre na Ir. Teresa a alegria de viver a fé cristã até às suas últimas conseqüências! Toma-a por modelo!
Na nossa Missa de hoje, na qual elevamos às honras dos altares uma filha predileta do Chile, oramos de modo particular pela reconciliação. No Salmo responsorial, invocamos a Deus com estas palavras: 'concedei, Senhor, que vejamos os Vossos favores, seja-nos oferecida a Vossa salvação... Amor e fidelidade se encontrarão, justiça e paz se beijarão'(Sl 84/85, 8.11).

A atuação da reconciliação, que na Santa Missa tem a sua expressão no ato penitencial inicial e no rito da paz, continua sendo como que um clamor dos homens e dos povos ao Deus da Aliança. A esse Deus que reconciliou Consigo mesmo toda a humanidade em Cristo seu Unigênito, morto na cruz. Esse Deus confiou aos Apóstolos e à Igreja o ministério da reconciliação(cf. 2 Cor 5,18 s).

Como eu indicava na minha Exortação Apostólica "Reconciliatio et Paenitentia": "A toda a comunidade dos fiéis, à inteira estrutura da Igreja, é confiada a mensagem de reconciliação, ou seja, a obrigação de fazer todo o possível para testemunhar a reconciliação e para a atuar no mundo... Em íntima conexão com a missão de Cristo, a missão da Igreja... pode, portanto, resumir-se na tarefa - central para ela - da reconciliação do homem: com Deus, consigo mesmo, com os irmãos e com toda a criação" . Mas não podemos esquecer que a reconciliação é um dom de Deus, é um fruto da graça "de Cristo redentor e reconciliador, que liberta o homem do pecado sob todas as suas formas".

Por sua parte, a Igreja vive na celebração da Eucaristia a forma mais intensa e expressiva da sua condição de ser comunidade reconciliadora e sacramento de comunhão do homem com Deus e com o gênero humano (cf. Lumen Gentium, n. 1). Com efeito, a celebração da Eucaristia requer a vontade firme de reconciliação e de perdão. Por isso, na nossa oração pedimos ao Pai celestial que perdoe as nossas ofensas, e testemunhamos a sinceridade da nossa súplica perdoando, por nossa vez, àqueles que nos têm ofendido (cf. Mt 6, 12).

0 novo espírito do Reino de Deus que Jesus nos revela, é-nos expresso também nesta exortação que a comunidade cristã deveria sempre meditar num contexto eucarístico: "Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta" (Mt 5, 23-24).

Vemos, portanto, amadíssimos irmãos, quão exigente é o apelo do Senhor à reconciliação fraterna. Numa humanidade marcada por tantas divisões, que têm a sua causa última no pecado, a reconciliação é uma necessidade, e também uma condição de sobrevivência: se a paz e a concórdia não brilham entre os indivíduos e os povos, os conflitos podem atingir proporções de verdadeira tragédia.
Nesta cerimônia de Beatificação da Ir.

Teresa de los Andes quero dar, com toda a minha alma, graças ao Senhor porque, mediante o espírito de diálogo e de reconciliação, foi preservada a paz entre duas Nações irmãs, o Chile e a Argentina, com a solução da controvérsia sobre a zona austral. Graças sejam dadas ao Pai misericordioso por ter sustentado o Sucessor de Pedro e os seus colaboradores nos seus esforços durante a mediação. Graças sejam dadas ao Senhor da história, por ter inspirado aos governantes e a estes dois povos irmãos, sentimentos de paz e de entendimento que evitaram tantos sofrimentos e algumas consequências imprevisíveis para todo o continente americano.


E agora permitir-me-eis que vos fale, do mesmo modo como o fiz no meu encontro com o Episcopado chileno, da reconciliação interna, a saber, dentro da vossa pátria.Certamente, está presente no ânimo de todos a persuasão de que é imprescindível uma atmosfera de diálogo e de concórdia, o que, por outro lado, não é alheio à reconhecida tradição democrática do nobre povo chileno.

De igual modo, está de acordo com esta trajetória do vosso país a convicção, arraigada nas consciências, de que a reconciliação se expressa na convergência das vontades para a obtenção do bem comum, para esse alto objetivo que confere significado próprio e a sua razão de ser às funções da comunidade política, como nos ensina o Concílio Vaticano II: "0 bem comum compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição" (Gaudium et Spes, n. 74).


Deve-se dizer, pois, que responde à condição social e comunitária do homem o fato de que este participe ativamente na vida pública, em ordem a promover o bem comum e a fomentar tudo o que assegure condições de justiça, de paz e de reconciliação, como indica o mesmo Concílio! "É plenamente conforme com a natureza do homem que se encontrem estruturas jurídico-políticas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes" (Gaudium et Spes, n. 75)

A Igreja, em conformidade com a sua irrenunciável missão, tem sido e continuará a ser "sinal e salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana" (Ibid. n. 76), do homem que é imagem de Deus. Segundo quanto afirma a mesma Constituição pastoral "Gaudium et Spes": "A Igreja, sem dúvida, alicerçada no amor do Redentor, contribui para que a justiça e a caridade floresçam mais amplamente no seio de cada nação e entre as nações.

Pregando a verdade evangélica, e iluminando todos os setores da atividade humana pela sua doutrina, pelo testemunho dos fiéis cristãos, a Igreja respeita e promove também a liberdade política, e a responsabilidade dos cidadãos" (Ibid. n. 76).
Com essa mesma liberdade evangélica e com o coração posto no bem desta amada Nação, peço ao Senhor que vos conceda com abundância essa reconciliação, que implica para todos uma consciência mais yiva, da dignidade humana.

A busca do bem comum exige também a rejeição de toda a forma de violência e de terrorismo - de qualquer parte que ela venha - que precipita os povos no caos. A reconciliação, como a propõe a Igreja, é o caminho genuíno da libertação cristã, sem o recurso ao ódio, à luta de classes programada, às represálias, à dialética desumana que não considera os outros como irmãos, filhos do mesmo Pai, mas como inimigos a combater. Não nos cansaremos de repetir em todas as partes que a violência não é cristã nem evangélica, nem caminho para resolver as dificuldades reais dos indivíduos ou dos povos.

Neste parque, que tem o nome de um dos mais ilustres pais da pátria, quero manifestar o meu encoraja mento e o meu apoio aos esforços em favor da concórdia por parte do Episcopado chileno; e em particular, ao Pastor desta Arquidiocese, pelos seus prementes apelos à pacificação e ao entendimento, e pela sua enérgica condenação da violência e do terrorismo.Trabalhar pela reconciliação supõe um amor universal, paciente e generoso, firme na proclamação da verdade, e inflexível. em resistir a toda a classe de violência.

Tem como fundamento a missão mesma da Igreja, que proclama a comunhão dos filhos de Deus numa mesma família, o respeito aos irmãos, especialmente aos mais necessitados, o trabalhar pelo bem comum.Ante esta perspectiva, a Igreja no Chile não pode renunciar à tarefa de convencer e de unir todos os chilenos num empenho conjunto de solidariedade e de participação, a fim de conseguir o bem da átria.Como proclamaram os vossos Bispos: "0 Chile tem vocação de entendimento e não de conflito". Não se pode progredir se as divisões são estimuladas. É a hora do perdão e da reconciliação.

"Deixai-vos reconciliar com Deus"(Cf. 2 Cor. 5, 20), exorta-nos São Paulo. Esta busca da paz com Deus na qual insiste o Apóstolo, é uma tarefa que não admite pausa; é um programa de vida que deve arraigar-se cada vez mais nas consciências de todos até ao final dos tempos.Para alcançar esta almejada meta, o nosso caminho está iluminado pelo estilo de vida das bem-aventuranças.

Há acordo na verdade, quando confessamos sem temor que o Reino de Deus pertence aos pobres em espírito; quando os tristes são consolados, quando os pacíficos orientam os destinos do mundo, quando se exerce a compaixão e a misericórdia.

Há verdadeira reconciliação entre os filhos de um mesmo povo, quando com o contributo de um diálogo aberto e sincero desaparecem preconceitos e temores, quando homens e mulheres - puros de coração - se esforçam por sentir, falar e atuar como artífices de paz. Então Deus lhes chama filhos seus e os cumula de felicidade.Há concórdia de mentes e de vontades quando, por amor à justiça e à verdade, se respeita a dignidade de cada pessoa e se aprende a sabedoria da cruz, experimentando o valor e a razão profunda do amor e do perdão, em comunhão com Cristo.

Sofrer por causa do amor, da verdade, da justiça, é o sinal da fidelidade ao Deus da vida e da esperança. É a bem-aventurança daqueles que por Cristo sofrem, caem na terra como os grãos de trigo e são promessa de vida e de ressurreição.
Eis aí como se constrói o futuro, mediante um amor paciente e compreensivo que crê e espera sempre, porque nutre confiança em Deus, que tem em suas mãos os destinos da história.Queridos irmãos e irmãs, filhos e filhas da pátria chilena.Neste dia elevo a minha oração ao Senhor, juntamente com todos vós, pedindo-Lhe pelo bem inestimável da reconciliação, pelo dom da paz e da justiça para toda a vossa sociedade.
"0 fruto da justiça é a paz" (Is 32,17)

0 Evangelho das bem-aventuranças é a Carta magna do Reino de Deus. As palavras de Jesus ressoam como um apelo e um desafio a optar pelo caminho evangélico da paz, que é fruto da justiça, contra toda a tentação da violência, com a paciência e a eficácia de quem sabe construir a paz, criando as condições necessárias para renovar os corações e reformar as estruturas injustas. Este é o estilo e a maneira de agir dos discípulos do Mestre da paz e do amor. "Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus"(Mt 5,9)Nesta Eucaristia pedimos ao Senhor a sua luz e a sua graça, "para que possamos construir constantemente a paz, baseada na justiça, no amor e na liberdade".

"Ele é a nossa paz"(Ef 2,14).
Em Cristo, Deus Pai reconciliou consigo todo o gênero humano, todos os filhos e todas as filhas do "primeiro Adão". "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que Nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna"(Jo 3,16). Os santos e as almas eleitas são testemunhas excepcionais deste amor do Pai.E a Beata Teresa de los Andes é uma destas testemunhas!

Hoje, enquanto damos graças ao Senhor, a fim de que inspire desejos de paz e de reconciliação entre os homens e os grupos sociais, imploramos ardentemente o fruto maduro dessa reconciliação para a vossa pátria. Não nos esquecemos nunca de que Cristo nos reconciliou com Deus na perspectiva da vida eterna.Não o esqueçamos!

Neste dia ditoso para a Nação chilena, porque a Ir. Teresa foi elevada às honras dos altares, parece que ela nos repete, como mensagem de vida, as palavras que aprendeu do seu pai e mestre S. João da Cruz: "onde não há amor, ponha amor, e obterá amor". Aqui na terra permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. Elas nos conduzem à eternidade: à salvação eterna em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. À união com Deus. Com Deus que é Amor.E por isso: a maior delas é o amor."

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NA CERIMÔNIA DE CANONIZAÇÃO

"Eu sou a luz do mundo"(Jo 8,12).
0 domingo hodierno, IV da Quaresma, poderia ser chamado com razão o dia da Luz. No caminho, com efeito, que preparava os catecúmenos para o batismo, nos primeiros séculos do Cristianismo, eles pregustavam, na liturgia deste dia permeada de múltiplos apelos ao tema bíblico da luz, o momento em que os olhos da sua alma se abririam, mediante o lavacro batismal, à luz da fé, entrando assim a fazer parte da comunidade da Igreja.

O Sacramento do Batismo assinala a passagem da morte para a vida, graças à participação no mistério de Cristo crucificado e ressuscitado. Cristo é a vida; e a vida; e a vida "é a luz do mundo". 0 Verbo que veio ao mundo, o Filho consubstancial ao Pai, é Ele mesmo a "Luz da Luz". Aqueles que 0 acolhem, acolhem a luz. Abrem-se os seus olhos; abre-se a visão interior da alma, para ver "as maravilhas de Deus" (magnalia Dei) (Act. 2, 11).

Narrando a cura do homem cego, o Evangelho do IV domingo da Quaresma mostra o caminho não fácil, que conduz à descoberta desta Luz: à descoberta de Cristo. De quantos e diversos modos o acontecimento, narrado pelo evangelista João, se renova na existência dos seres humanos de todas as épocas!

Os modos são diversos, mas a conclusão é a mesma: a luz resplandece nas trevas interiores e exteriores. 0 homem vê. Mais ainda: o homem torna-se testemunha da Verdade que vem de Deus.
"Eu sou a Luz do mundo. Quem Me segue... terá a luz da vida" (Jo 8, 12). 0 Apóstolo escreve: "... sois luz no Senhor. Comportai-vos como filhos da luz." (Ef 5, 8).

Hoje, a Igreja deseja pronunciar as palavras de São Paulo, referindo-as de modo particular a duas filhas suas, tornadas "luz no Senhor": Maria de Santo Inácio (Claudina Thévenet) e Teresa ",de los Andes," (Joana Fernandez Solar). Estas "filhas da luz" distinguiram-se como testemunhas de Cristo no mundo. Na "velha" Europa, Thévenet, e no "Novo Mundo", Fernandez Solar. Enquanto ainda celebramos o quingentésimo aniversário da evangelização do grande continente americano, nós recolhemos uma esplêndida flor suscitada pela Boa Nova e pela graça do santo Batismo, entre as populações daquela "nova terra"...

Luz de Cristo para toda a Igreja chilena é a Irmã Teresa de los Andes, Teresa de Jesus, carmelita descalça e primí cias de santidade do Carmelo Teresiano da América Latina, que hoje é incorporada ao número dos Santos da Igreja universal.
De igual modo como na primeira leitura que escutamos do livro de Samuel, a figura de Teresa sobressai não pela "sua aparência nem pela sua alta estatura". "O olhar de Deus - diz-nos o livro sagrado - não é como o olhar do homem, pois o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração" (1 Sam 16, 7).

Por isso, na sua jovem vida de pouco mais de 19 anos, nos seus onze meses de carmelita, Deus fez brilhar nela de modo admirável a luz do seu Filho Jesus Cristo, para que sirva de farol e guia a um mundo que parece cegar-se com o resplendor do divino. A uma sociedade secularizada, que vive de costas voltadas a Deus, esta jovem carmelita chilena, que com viva alegria apresento como modelo da perene juventude do Evangelho, oferece o límpido testemunho de uma existência que proclama aos homens e às mulheres de hoje que no amar, adorar e servir a Deus estão a grandeza e a alegria, a liberdade e a reali zação plena da criatura humana.

A vida da Bem-aventurada Teresa brada silen ciosamente, desde o claustro: "Só Deus basta!".E brada especialmente aos jovens, fa mintos de verdade e em busca de uma luz que dê sentido às suas vidas. A uma ju ventude solicitada pelas contínuas mensagens e estímulos de uma cultura tornada erótica, e a uma sociedade que confunde o amor genuíno, o qual é doação, com o uso hedonista do próximo, esta jo vem virgem "de los Andes" proclama hoje a beleza e a bem-aventurança que emana dos corações puros.No seu terno amor a Cristo, Teresa encontra a essência da mensagem cristã: amar, sofrer, orar, servir.

No seio da sua família aprendeu a amar a Deus sobre todas as coisas. E ao sentir-se posse exclusiva do seu Criador, o seu amor ao próximo faz-se ainda mais intenso e definitivo. Assim o afirma numa das suas cartas: "Quando quero, é para sempre. Uma carmelita não esquece nunca. Desde a sua cela acompanha as almas que no mundo amou" (Carta, Agosto de 1919).


0 seu acendrado amor leva Teresa a desejar sofrer com Jesus e como Jesus: "Sofrer e amar, como o Cordeiro de Deus que tomou sobre si os pecados do mundo" - diz-nos. Ela quer ser hóstia imaculada, oferecida em sacrifício contínuo e silencioso pelos pecadores. "Somos co-redentoras do mundo - dirá mais adiante - e a redenção das almas não se efetua sem cruz". (Carta, Setembro de 1919).A jovem Santa chilena foi eminentemente uma alma contemplativa.

Durante longas horas, junto do tabernáculo e diante da cruz que presidia a sua cela, reza e adora, suplica e expia pela redenção do mundo, animando com a força do Espírito o apostolado dos missionários e, de modo especial, dos sacerdotes. "A Carmelita - dir-nos-á - é irmã do sacerdote" (Carta de 1919). Sem dúvida, ser contemplativa como Maria de Betânia, não impede Teresa de servir como Marta.

Num mundo em que se luta denodadamente para sobressair, possuir e dominar, ela ensina-nos que a felicidade consiste em ser a última e a serva de todos, seguindo o exemplo de Jesus, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela redenção de muitos (cf. Mc. 10, 45).Agora, da eternidade, Santa Teresa de los Andes continua a interceder como advogada de inúmeros irmãos e irmãs.


Aquela que encontrou o seu zelo na terra desposando Jesus, contempla-O agora sem véus nem sombras, e da sua imediata proximidade intercede por aqueles que buscam a luz de Cristo. "0 Senhor é o meu pastor"(Sl 22/23,1). Inteiras gerações de discípulos, fiéis e seguidores de Cristo no "velho" e no "novo" mundo, do Norte ao Sul, dirigem-se Àquele que é o Bom Pastor. O Pastor das almas. Àquele que nos remiu por meio do sangue da sua cruz, Aquele que é "a luz do mundo".

Eis que, em nome de todas essas gerações, nos falam hoje estas duas santas: Maria de Santo Inácio e Teresa "de los Andes".
Dão graças ao Pai por "toda a bondade, justiça e verdade"( Ef 5,9), que são o fruto da "luz" de Cristo. Sim, elas dão graças. E, ao mesmo tempo, a sua voz ultrapassa as trevas, que incessantemente invocam a luz. Proclamam a todo o homem ameaçado pelas trevas: "Desperta tu...Levanta-te do meio dos mortos, e Cristo brilhará para ti"(Ef 5,14).

Eis a mensagem quaresmal da canonização hodierna: Cristo é a luz do mundo! Quem O segue "terá a luz da vida".
Amém!"