Beber da Fonte: Ser Gente

Quando  falamos  em  ser  gente,  queremos expressar que de fato a pessoa seja ela mesma. Isso é, seja humana e não uma máquina. A máquina é controlada,  existe um programa que a conduz, que determina, é em outras palavras matemática.

O ser humano não é regido por um cálculo matemático. Ele é gente, e gente chora, ri, fica feliz e também fica triste. Falando em tristeza gostaria de fazer uma apologia a tristeza. Você leitor deve ter ouvido tanto nestes dias “feliz ano novo”, que inconscientemente não existe espaço para a tristeza em sua vida.

Penso que existe no momento atual uma banalização no uso de antidepressivos. O prozac foi a primeira série de medicamentos que alteram  o nível de serotonina, substância química do cérebro relacionada a sensação de prazer. Corremos o risco de receber alguns diagnósticos superficiais onde confundem a tristeza,  a melancolia com depressão.

A idéia é abolir de nossa vida  toda e qualquer contrariedade. Há a necessidade  de ser feliz acima de tudo e  o tempo todo.  A máquina do ser humano está registrada “seja feliz o tempo todo”.

Diener elaborou uma tese central: “pessoas felizes vivem mais”. Isto é, sistemas  imunes mais fortes.  Depois repensou, comparou pessoas felizes e  extremamente felizes. O resultado,  pessoas extremamente felizes vivem menos,  e são menos bem sucedidas.

Essa tese nos leva a concluir que a felicidade tem limite. O contentamento em excesso torna as pessoas menos atentas a riscos.  Na teoria evolucionista,  os sentimentos negativos, como angústia, tristeza e pessimismo,  fazem parte de nossa  natureza.  Imaginemos um homem pré-histórico extremamente feliz  despreocupado, saindo desarmado no meio da selva. Se esse homem existiu algum dia,  provavelmente foi comido por um felino. Acredito que o estado de tensão é  uma condição necessária a vida. Segundo Eduardo Giannete os riscos de um contentamento exagerado levaria a um enfraquecimento do respeito às normas morais de convivência, pessoas deixariam de ter culpa ao prejudicar alguém, seria o caos completo.

Parece-me que existe um vinculo entre realização criativa e angústia no meio dos pensadores e artistas.  Imaginemos se Beethoven na Nona Sinfonia se, em vez de usar a música para aquietar  o espírito, tomasse antidepressivos? Há estudos que comprovam a oscilação de humor e a criatividade.  Interessante que entre  às fases de dor e depressão é  que surgem as produções mentais e artísticas.

Desde os anos 90, o mundo do trabalho tem dois conceitos. São eles,  zona de conforto, isto é,  situação que o profissional está tão bem que não se sente desafiado.  Outro conceito,  o estresse positivo, que leva à ação, oposto do negativo,  que traz a apatia.  Na vida prática,  já se sabe  que um percentual de tristeza,  estresse,  angústia é necessário para realizar um bom trabalho.  Em outras palavras,  seja gente e dê o direito a você mesmo, para que de fato seja.  Gente chora, ri,  ama,  odeia,  é feliz, é infeliz…. Termino

com as palavras do  Filósofo Renato Janine Ribeiro:

“As pessoas não têm paciência para a infelicidade. Num mundo altamente competitivo,  estar triste pode ser interpretado como um sinal de fraqueza, e isso ninguém quer”.

Frei Ivani P. Ribeiro O. Carm.

Frade Carmelita.