A Espiritualidade do Carmelo
 

A ESPIRITUALIDADE DO CARMELO
(Notas sobre alguns temas inspirativos)

Alguns temas geradores de nossa espiritualidade estão sendo recuperados e relidos no nosso contexto cultural atual. Parece-me que é evidente a sua atualidade.

O PRIMADO DA EXPERIÊNCIA DO DEUS TRINDADE:
= É a experiência da comunhão, do amor livre e gratuito de Deus que se debruça sobre o homem e entra na sua história; é experiência de diálogo, de reciprocidade.
= Esta experiência é encontro interpessoal com Deus vivo: no diálogo orante (individual e comunitária) com Ele; na mediação da Palavra; nos fatos da história; no encontro com o pobre.

CAMINHO E MISTAGOGIA:
= A maior parte dos escritos carmelitanos têm uma dimensão mistagógica pretendendo introduzir o fiel na mais autêntica e madura experiência de Deus. Encontramos isto desde o Livro da “Instituição” (itinerário com Elias) ao Livro da Vida, ao Caminho da Perfeição, ao Castelo Interior de Teresa D’Ávila; à Subida, Noite Escura e Cântico Espiritual de João da Cruz, em João de S. Sanson, na “Pequena via” de Tereza de Lisieux, em Isabel da Trindade (“Como encontrar o céu na terra”, escrito a uma mãe de família)...

= Podemos dizer que a espiritualidade carmelitana se apresenta como A ESPIRITUALIDADE DO CAMINHO. Neste caminho Deus Trindade age como Pedagogo (João da Cruz 2S 17,2-4). É Ele o princípio que se encontra na origem; é Ele que toma a iniciativa, colocando-se à procura do fiel, suscitando, guiando e sustentando o seu caminho, respeitando os ritmos e os tempos.

= A experiência de Deus Trindade como Pedagogo transforma a existência do fiel em “existência trinitária”, isto é, cria relação de autêntica comunhão fraterna, tornando-o capaz de amar o outro como Deus o ama. Esta é fundamentalmente a meta do itinerário mistagógico: formar para uma autêntica antropologia comungante alicerçada na Trindade.

= A Dinâmica do caminho mistagógico tem seu ritmo próprio:
· da passagem / abertura do homem velho (egocêntrico) ao homem novo (alterocêntrico) em Deus e nos irmãos);
· de contínua confrontação e conformação com o projeto de Deus;
· da busca constante da Face de Deus nas mediações eclesiais e humanas;
· da experiência da dialética da presença-ausência de Deus, ou seja, de um Deus que não podemos possuir totalmente, mas pelo qual devemos ser possuídos.

A adesão do fiel é assinalada pela docilidade à ação pedagógica de Deus e do compromisso  de vida.

A BELEZA: DIMENSÃO ESTÉTICA DO HOMEM ESPIRITUAL
É outro tema inspirativo presente na nossa espiritualidade. Basta observar a rica simbologia de nossos autores:
· Os Carmelitas são chamados “profetas” porque salmodiam, isto é, louvam a Deus com instrumentos musicais (Instituição);
· Tornar-se “louvor de glória”ou “harpa do Espírito”(Elizabeth da Trindade);
· O Carmelo como “linda casinha”, coluna de pedras preciosas, jardim, “prado florido” (Madalena de Pazzi);
· Modelo antropológico “exemplar” é Maria; nela se reflete a Beleza de Deus( Bóstio, J.S.Sanson, Miguel de S.Agostinho, Tereza de Lisieux, Elisabeth da Trindade).

A beleza divina é, sobretudo Dom de Deus, comunicado ao filho pelo Espírito Santo. Não é, porém mero gosto estético; encerra harmonia de vida, vivida segundo a qualidade do Amor Divino (capacidade de “abaixar-se”, de viver na comunhão e reciprocidade, na ótica da doação e da gratuidade...). Indica também a capacidade de “maravilhar-se” face o agir de Deus nos acontecimentos da história.

Esta beleza, dom de Deus é, no fundo, a grande utopia que me estimula à criatividade, mesmo sem a minha força para conquistar um mundo novo. Esta utopia assim dever ser cultivada: no seguimento exigente de Cristo, na escuta sapiencial da sua Palavra, no respeito e na valorização das criaturas e da criação.

SENTIDO ECLESIAL E PROFÉTICO:
Se a primazia é colocada na experiência de Deus Trindade, não pode a espiritualidade carmelitana deixar de ser eclesial e profética. Podemos então recordar a atenção eclesial de Tereza D’Ávila e dos outros santos carmelitas.
Cada um de acordo com o contexto sócio-eclesial do próprio tempo, deu uma resposta profética (Isto é, não alienada, mas criativa) ou com o testemunho de uma vida pobre e transparente da presença de Deus, ou com a solidariedade para com os mais pobres, com a educação e formação dos jovens para a vivencia dos valores cristãos e humanos autênticos ou com a promoção da justiça, da paz, dos direitos humanos, do ecumenismo...

Frei Egídio Palumbo, O.Carm.

(Publicado no Jornal Diário do Noroeste do dia 29/10/2006)