“Não Morro, Entro na Vida”
 

No dia 2 de novembro celebramos o Dia dos Fiéis Falecidos, nossos irmãos e irmãs que já partiram desta vida para a eternidade. Muitos têm o costume de visitar seus túmulos e ali passar algum momento para rezar pelo ente querido, ou para recordar o que essa pessoa fez em vida...

 

A Liturgia do Dia dos Finados poderia ser chamada também a Liturgia da esperança. Pois, como "o último inimigo é a morte", a vitória sobre a morte é o critério da esperança do cristão. A morte é considerada, espontaneamente, como um "acabou tudo". A resposta cristã é: "A vida não é tirada, mas transformada", assim rezamos no Prefácio da missa desse dia. E esta resposta baseia-se na fé na Ressurreição de Jesus Cristo. Se ele ressuscitou, também para nós a morte não é o ponto final. Somos unidos com ele na vida e na morte (Jo 11,25-26). Ele é a Ressurreição e a Vida: unir-se a ele significa não morrer, não parar de existir diante de Deus, embora o corpo morra e apodreça.

Trata-se de uma fé, de uma maneira de traduzir o mistério de Deus e da totalidade da existência. Já o AT, o autor de Jó observa que as aparências enganam: a justiça dos justos não é um absurdo diante da morte ("ele não aproveitou nada da vida!"). Pelo contrário, é o começo do "estar na mão de Deus", que não tem fim. Assim também descreve Paulo a existência cristã como estar já unido com Cristo na Ressurreição, o que é simbolizado pelo batismo.

 

Assim, a morte, para o cristão, é a pedra de toque de sua vida. Dá seriedade à sua vida. Valoriza, na vida, o que ultrapassa os limites da matéria, que é só para esta vida" (1Cor 15,19). Abre-nos para o que é realmente criativo e supera o dado natural da gente. Um antegozo daquilo que é "vida pneumática", a gente tem quando se supera a si mesmo, p. ex., negando seus próprios interesses em prol do outro. O verdadeiro amor implica, necessariamente, num morrer a si mesmo. É uma superação do homem material. São estas as realidades espirituais que encontrarão confirmação definitiva e inabalável na morte. Na morte, a melhor parte da gente se torna inacessível à instabilidade desta existência. A morte é nossa confirmação na mão de Deus: Ressurreição.

A celebração dos fiéis falecidos é a celebração de nossa esperança e da comunidade dos santos, da "comunhão dos santos", tão bem como a festa de Todos os Santos. Este dia é um dia de recordação daqueles que passaram entre nós, deixaram sua marca, construíram algo para que permanecesse. Recordar os entes queridos não para sofrer, mas para dizer que eles continuam vivos em nossa memória, que os recordamos com saudade e lembramos das boas coisas que fizeram.

 

Este é o dia para tomar consciência de uma frase maravilhosa de Santa Terezinha do Menino Jesus: "Não morro, entro na vida".

Podemos dizer que o nascimento e a morte é igual para todos. Nascemos trazendo ao mundo apenas nosso pequeno corpo vivificado. Partimos um dia deixando nosso corpo, que pertence à terra, e o sopro divino parte para a eternidade. Ali, no caixão, somos todos iguais. Desaparecem as distâncias, muitas vezes criadas por causa de nosso egoísmo, ganância, orgulho, soberba, etc. Deste mundo levamos apenas o bem que fizermos, as boas obras. Essas são as únicas que nos acompanham e que estarão na balança do Justo Juiz. Por isto que o verdadeiro sentido da vida é “passar fazendo o bem”.

 

Frei Josué Ghizoni O Carm

 

(Publicado no Jornal Diário do Noroeste do dia 22/10/2006)