Tão humano que só podia ser Deus
 

A ascensão não quer dizer que Cristo foi embora, nos abandonou. Deixou de estar visível para estar mais presente, é uma ausência que se torna mais presença ainda. Agora,  ressuscitado, é independente das limitações do tempo e de espaço. A terra está cheia do divino.

Hoje parece estar na moda dizer que o divino se revela no humano, mas isto já é muito antigo e está presente na redação dos evangelhos, principalmente em São João quando afirma: “O Verbo se fez Carne e habitou entre nós” (Jo.1,14), ou seja Deus armou uma tenda entre nós, o divino se aproximou do humano para que este fosse divinizado.

Jesus na sua pregação anuncia: “Cumpriu-se o tempo”, “O Reino de Deus aproximou-se”, “O Reino de Deus está no meio de vós”. Já existia no Judaismo a idéia do Reino de Deus sobre o mundo e a criação. Jesus anuncia não somente que as pessoas estavam à beira do final dos tempos, mas ao mesmo tempo, que o novo tempo de salvação já havia começado. O Reino de Deus já está acontecendo no presente, mas chegará à sua realização plena no futuro, é o “Já agora”, mas o “Ainda não”.

Interessante notar, que na história de personagens heróicos de vários povos, são narrados os seus últimos dias e algumas vezes eles são transformados em mitos, simplesmente desaparecem misteriosamente, outros segundo a crença popular não morreram,  mas continuam perambulando após a sua morte.

Também certos personagens bíblicos são “arrebatados, elevados”: Moisés, Elias (2 Rs.2,9-11), Henoc (Gn.5,24), portanto quando se narra a ascensão de Jesus tem-se por pano de fundo os acontecimento narrados. O “arrebatamento” de Jesus (2 Rs.2,9-1; Mc.16,19; At.1,2.10-11) compreende os últimos dias de seu destino de sofrimento e os primeiros dias de seu destino glorioso (Paixão, morte, ressurreição e ascensão). João empregará, para o mesmo conjunto o termo teológico “glorificar” (Jo.7,39; 12,16-23; 13,31s.); a crucificação será para ele “elevação” (Jo.12,32). “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então conhecereis quem Eu Sou” (Jo.8,28).

Na cruz será dada a conhecer a sua filiação, a sua unidade de ser com o Pai. A cruz é a verdadeira “elevação”. Ela é a elevação do “amor até o fim” (Jo.13,1); na cruz Jesus está na “elevação” de Deus, que é o amor. Também na passagem da Transfiguração aparece que a “Glória” de Jesus, a divindade do Filho, sua glória está ligada com a paixão. (Lc.9,28-31-36).

No Evangelho de Lucas e nos Atos dos Apóstolos, “A Exaltação” de Jesus é apresentada como ASCENSÃO AO CÉU, no final das aparições pascais (Lc.24,51 – At.1,9).

Trata-se de uma maneira intuitiva de apresentar a GLORIFICAÇÃO DE JESUS. Em At.1,3 se diz que Jesus apareceu aos discípulos durante quarenta dias. Estes dias unem a RESSURREIÇÃO À MISSÃO DA IGREJA. Com efeito, é no final desse tempo, especialmente denso e rico em comunicação da graça de Deus, mediante o ressuscitado que se situa a ASCENSÃO. Trata-se da ÚLTIMA APARIÇÃO PASCAL EM CONEXÃO COM O ENVIO MISSIONÁRIO.

A mensagem é clara: acabaram-se as aparições, começa agora o TEMPO DO TESTEMUNHO ECLESIAL, O TEMPO DA IGREJA. Doravante, serão os discípulos as testemunhas do ressuscitado. E todos aqueles que acreditarem no seu testemunho se tornarão por sua vez, testemunhas de geração em geração.

O discípulo, não deve, assim ficar “olhando para o céu” passivamente, ele é chamado a viver o dinamismo missionário.

Na palavra enigmática do Filho do Homem encontramos o originalmente próprio da figura de Jesus, da sua missão e do seu ser. ELE VEM DE DEUS, ELE É DEUS. Mas precisamente por isso ele traz – AO ACEITAR O HUMANO MODO DE SER – A VERDADEIRA HUMANIDADE. ELE VEM DE DEUS E CRIA ASSIM O VERDADEIRO MODO DE SER HOMEM.

Uma reflexão sobre a ascensão leva-nos a aumentar a dimensão de nossa fé em dupla direção: NO ACEITAR E PROCLAMAR CRISTO VERDADEIRO HOMEM E VERDADEIRO DEUS, ao retornar ao Pai nos ensina que TODOS E TUDO DEVERÃO REGRESSAR AO PAI DA GLÓRIA; no empenho de agir no mundo em que nos achamos, para que A REDENÇÃO OPERADA POR CRISTO ATINJA O SEU OBJETIVO E REBRILHE EM NOSSO ROSTO A GLÓRIA DE CRISTO. AMÉM!

                                                Frei Filomeno dos Santos O. Carm.