O Bom Pastor
 

         Frei Antonio Carlos Gomes, O. Carm.

 

        Os discípulos continuam a missão de Jesus. No livro dos Atos dos Apóstolos estão narrados os sinais realizados pelos discípulos.  Eles atestam nos tribunais que as obras são feitas por meio do nome do Mestre que foi crucificado e que Deus o ressuscitou dos mortos, afirma Pedro. Na primeira leitura está a narrativa do discurso do apóstolo que retoma o salmo 118, verso 2, no qual relata que Jesus é a pedra angular e, que infelizmente, os chefes do povo de Israel optaram pelas obras humanas e desprezaram o plano de Deus. Rejeitaram a pedra verdadeira e jogaram fora o seu projeto presente no Filho. Mas Deus vai colocá-Lo como fundamento e alicerce do seu Reino. Jesus é o Servo fiel que realiza plenamente o projeto de salvação de todo ser humano. Ele, com o objetivo de cumprir a missão, enfrentou todas as formas de rejeição. E por sua fidelidade ao Pai, recebeu a vida em plenitude, a Ressurreição. Interessante que os discípulos passam por situação igual. Ao serem fiéis a Deus e levarem adiante a missão do Filho, são julgados pelos chefes dos tribunais e condenados. A cura do coxo é apenas um sinal de salvação. Toda ação feita com o objetivo de promover a vida e suprir as necessidades das pessoas em todos os níveis, acontece o prolongamento da salvação de Deus no mundo.

        A Primeira Carta de São João - a segunda leitura - afirma que todos agora são chamados filhos de Deus. Realidade advinda do batismo. E quem é filho de Deus realiza as obras do Pai rejeitadas pelos que são do mundo. Obras que devem ressaltar a vida e que não são realizadas por aqueles que vivem preocupados com os seus próprios interesses e projetos. A constatação animadora é o fato de Deus revelar que a vida divina é transmitida agora, onde estou, e não somente depois da morte. Contudo, esta realidade só será manifestada plenamente na vida definitiva com o Pai. Quem é da luz o verá como Ele é.

        O Quarto Domingo da Páscoa é o “domingo do Bom Pastor”. Esta imagem é muito marcante no Antigo Testamento. De Abel a Davi o papel do pastor é predominante. No salmo 80,2;23 Deus é comparado a um pastor que defende e alimenta o seu povo e também afirma Isaías, 40,11: “carrega os cordeiros nas dobras do seu manto e conduz lentamente as ovelhas que amamentam”. Os reis de Israel foram péssimos pastores. Por isso Deus promete ao seu povo que vai enviar um verdadeiro pastor.

        Todos os evangelhos usam a figura do pastor para revelar o plano de Deus em Jesus. São João, no seu evangelho, diz que o verdadeiro pastor é aquele que dá a vida pelas ovelhas e luta por elas. Destaca o espírito aguerrido do pastor que defende o rebanho contra os animais ferozes. A passagem do evangelho apresenta a bonita afirmação de Jesus: “Eu sou o Bom Pastor”. Fica evidente que Jesus veio para dar a vida por suas ovelhas. Enquanto que o mercenário, que se preocupa apenas com o seu dinheiro, foge e deixa as ovelhas sem proteção, o pastor protege e garante a segurança às ovelhas. O coração do verdadeiro pastor não faz distinção, não usa regras, mas segue a lei do amor total e não mede esforços para dar guarida ao rebanho. A pergunta a ser respondida é: sou pastor ou mercenário? De que lado estou?

        Existe uma preocupação em taxar os que estão à frente da Igreja como os que devem ser bons pastores. Certo é que todos os cristãos são chamados a servir, a doar a vida por causa do evangelho. A ação não deve estar pautada no cumprimento da lei, no cálculo. O Bom Pastor não age pela lei, mas pelo amor ao próximo. Ele é verdadeiro se há liberdade. Jesus ao doar a vida livremente demonstrou muito amor. Ao dar o exemplo, doando totalmente sua vida, mostrou o único caminho do homem e da mulher para conseguir a vida eterna: pela entrega total. Amar para obter recompensa, servir a comunidade com o objetivo de ter vantagem é contradizer o pedido de Jesus: “oferecer a vida” – expressão repetida cinco vezes na passagem do evangelho do Quarto Domingo da Páscoa.