Frei Antonio Carlos Gomes, O. Carm.
A leitura ressalta que os apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus. Era um testemunho com coragem e não se deixavam amedrontar com insultos e violências. A verdadeira prova que Jesus ressuscitou, dada pelos apóstolos, é a vida em comunidade vivida pelos primeiros cristãos. Duas características ficam evidentes: eles tinham “um só coração e uma só alma” e “ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum”. A nova comunidade - testemunho marcante da ressurreição - podia ser vista por todos, mas o Cristo Ressuscitado não mais, pois foi para a glória do Pai. A comunidade da partilha é a resposta que Jesus deixou para quem quer impor o pensamento da competição, do domínio sobre os outros. Quando alguém vai partilhar os seus próprios bens faz-se necessário uma renúncia determinante, pois o pensamento está voltado para os próprios interesses.
Palavras bonitas não provam que Jesus está ressuscitado, mas o modo de viver da comunidade. Tudo era repartido conforme a necessidade de cada um, assim faziam os apóstolos. A autêntica comunidade cristã é direcionada não pelo egoísmo, mas pela generosidade, doação. Quando tais fatos acontecem na vida eclesial, Jesus Ressuscitado está presente. Enquanto não houver o real espírito de partilha e solidariedade nas comunidades, o milagre fica sendo o único critério para provar a Ressurreição de Jesus.
A Primeira Carta de São João será lida em todo o período pascal. O amor aos irmãos permeia a carta. Assim ele se expressa: “Irmãos, amemo-nos uns aos outros, porque quem ama é gerado por Deus”. A preocupação de São João é responder aos que pensavam ser possível amar a Deus sem se preocupar com os irmãos. Ele afirma também que a vida em Deus não pode ser vista, mas o sinal que mostra sua presença são as obras em favor dos irmãos.
A bonita passagem do evangelho pode ser apresentada em duas partes: quando Jesus comunica o seu Espírito aos discípulos e o famoso episódio com Tomé. Os demais evangelhos relatam também tiveram dúvidas os outros discípulos. Por que João afirma que apenas Tomé duvidou? A preocupação do evangelista é dar uma resposta aos cristãos que não viram o Senhor Jesus e muito menos os Apóstolos; e que tinham dificuldades em crer. Eles provavelmente faziam as perguntas que são feitas hoje: Jesus está vivo? Por que não aparece?
Para os discípulos o caminho da fé não foi fácil. Apesar de todos os sinais realizados por Jesus, muitos duvidaram. O evangelista escolhe Tomé como o apóstolo símbolo dos descrentes pelo fato de demorar a crer. João afirma que o Ressuscitado não pode ser apalpado e nem visto. Tudo passa pela fé. Não existem provas científicas da ressurreição. Jesus vai afirmar que felizes são aqueles que não viram. A fé de quem não viu é mais pura. É fácil acreditar quando se vê.
João deixa claro no seu Evangelho que não há provas além da Palavra. O Evangelho é a Palavra de Deus.
Outro dado importante é que Jesus aparece ressuscitado no primeiro dia da semana, o Domingo. Os discípulos se encontram para celebrar a Eucaristia em casa. Quando estão reunidos, o Ressuscitado aparece e deseja a paz. É interessante perceber que Tomé não faz a experiência do Ressuscitado porque está ausente. Jesus Ressuscitado está presente quando a comunidade se reúne. Não basta uma experiência pessoal.
A profissão de fé pronunciada por Tomé é muito atual. No tempo de Jesus muitos se autoentitulavam senhor, principalmente os imperadores romanos. Jesus é o Senhor dos senhores. Os que estão no poder, são meros servidores e simples servos. As honras são para Deus e não para os homens. Só Jesus é o Senhor.
Fonte: Padre Fernando Armellini – Celebrando a Palavra – Ano B