O testemunho da ressurreição de Jesus no Novo Testamento
 

A cruz poderia parecer o fracasso total da pretensão de Jesus de Nazaré: na hora da verdade Ele ficou sozinho, até o Pai parece tê-Lo abandonado. Teria acabado a causa de Jesus?

Contrariamente ao que se poderia concluir diante do crucificado sua causa não acabou. Bem sabemos que ela se desenvolveu de maneira extraordinária, contra todas as expectativas. Conforme o testemunho unânime de todos os escritos do Novo Testamento, o motivo da retomada bem mais forte do que antes – da causa “perdida” de Jesus  é a ressurreição... Lógico que é uma questão de fé nos testemunhos da Ressurreição que se dá de três maneiras fundamentais:

a) Mediante confissões ou fórmulas de fé. Exemplo: 1 Cor.15,3-5

b) Mediante testemunhas que afirmam a realidade da Ressurreição: At.10,40-42

c) Mediante relatos evangélicos sobre o Ressuscitado: Mc.16,1-8; Mt.28,1-20

1 Cor.15,3-5 é uma confissão de fé pré-paulina, recebida por Paulo da comunidade primitiva palestinense. É uma confissão que nos situa nos extratos mais antigos do Novo Testamento. Outros exemplos de confissões ou fórmulas de fé, também muito antiga, encontram-se em Rm.1,3-4 – 10,9 – At.2,23-24

Estas confissões ou fórmulas de fé, desenvolvidas provavelmente em ambiente litúrgico, constituem um resumo da pregação primitiva, do Kerigma pascal (anuncio da morte e ressurreição de Jesus Cristo, dimensão central da salvação).

E, como é que os discípulos ficam sabendo que Jesus está vivo, ressuscitado? A resposta do N.T. é clara; da ressurreição eles só têm notícia mediante as “aparições”. Nada se afirma a respeito de como teria ocorrido a ressurreição.

Na fórmula já citada de 1 Cor.15,3-5 estão incluídas as aparições a Pedro e, posteriormente, aos Doze. Paulo acrescenta em seguida outras testemunhas (1Cor.15,6-8): são pessoas conhecidas que podem ser interrogadas sobre o seu testemunho. Também Paulo é testemunha, posto que foi destinatário de uma aparição. Nestes textos, tão pouco se afirma algo a respeito de como ocorreu a ressurreição.

As narrativas apresentam lacunas e divergências de grande importância quando comparadas entre si. Um exemplo: para Marcos e Mateus as aparições realizaram-se na Galiléia (Mc.16,7: Mt.28,7.10). Enquanto que, para Lucas, elas teriam acontecido em Jerusalém (Lc.24). Outro exemplo: no evangelho de Lucas, as aparições ocorreram num único dia, no Evangelho de João realizaram-se durante uma semana, e, finalmente nos Atos dos Apóstolos, durante quarenta dias. Acrescente-se ainda que os relatos só coincidem parcialmente na apresentação das testemunhas. Tudo isso parece indicar que, antes da redação final, que chegou até nós, existiam diversas correntes na tradição pascal (assim, por exemplo, uma corrente que situava as aparições na Galiléia, outra, em Jerusalém).

Sabemos hoje que os relatos pascais constituem um gênero literário próprio. Evidentemente, é mister conhecê-lo, a fim de que não se deturpe a importante mensagem que os relatos contêm.

Vejamos: Os relatos pascais têm como objetivo básico afirmar a realidade da ressurreição. Querem evitar a tentação de “espiritualizá-la”. Jesus, integralmente considerado está vivo.

Daí a insistência em ressaltar a realidade corpórea da ressurreição. Jesus ressuscitado não é um espírito desencarnado (Lc.24,37-39): Ele conversa, come, etc., justamente para demonstrar a dimensão corpórea existente na vida nova do ressuscitado. Este é o mesmo que foi crucificado, a identidade entre os dois é sublinhada pelo relato que chama atenção para o lugar das chagas no ressuscitado (Jo. 20,24-29).

Nós também precisamos fazer a experiência com o ressuscitado que só acontece mediante abertura, reconhecendo-O nos Sacramentos, na vida da Igreja e na própria história.

                                           Frei Filomeno dos Santos, O. Carm.