COMUNHÃO FRATERNA: - 1. O ser irmão (frei) indica uma nova qualidade nas atitudes e nas relações pessoais que caracterizam a vida da comunidade conforme o modelo da Igreja primitiva de Jerusalém, participação, sintonia em um projeto comum, com divisão de bens e dos carismas pessoais, atenção às pessoas, diálogo e reconciliação na caridade recíproca.
2. Na Palavra e na Eucaristia os Carmelitas reconhecem a única “fonte” viva capaz de gerar e formar para a verdadeira comunhão fraterna. Permanecendo na Palavra escutada, pregada e vivida, os Carmelitas radicam-se sempre mais em Cristo, suas decisões e seu agir encontram inspiração e discernimento na sua Palavra. Ao redor da Eucaristia, os Carmelitas revitalizam o seu tornar-se “um só coração e uma só alma”, na diversidade das pessoas, na variedade dos dons e dos carismas a serviço da comunidade.
3. Com uma linguagem diversa da nossa, estes valores da comunhão fraterna são encontrados na tradição do Carmelo. Alguns exemplos:
- A origem e fonte do Amor Fraterno é o Amor Divino.
- O Carmelo é o “pequeno grupo de Cristo” (Tereza d’Ávila), o “grupo apostólico de Cristo” (Tereza de Jesus) a “coluna de pedras preciosas que tem como base a caridade” (M. Madalena de Pazzi), o Carmelo é como o céu; “não estamos muito distantes, já se realiza a fusão das almas de quem habita na Trindade” (Elizabeth da Trindade).
As atitudes que prevalecem são as de comunhão, serviço, comunicação interpessoal, atenção ao outro.
4. Atualmente são considerados como forma de crescimento na comunhão fraterna as várias formas de diálogo no Espírito: Lectio divina comunitária – discernimento comunitário – programação e avaliação – correção fraterna – formação permanente.
A DIMENSÃO CONTEMPLATIVA DA VIDA: 1. A fraternidade do Carmelo é uma fraternidade contemplativa, e isto a meu ver por dois motivos:
- Porque cada itinerário para Deus (ou de Deus para nós) deve ser vivido não somente em nível pessoal, mas também companhia dos irmãos, a fraternidade é o ambiente da experiência contemplativa.
- A escuta orante da Palavra, a oração pessoal e comunitária e o crescimento nos valores do Espírito, têm como finalidade tornar o ambiente onde se vive a fraternidade uma epifania da presença de Deus e uma irradiação da mesma; a experiência contemplativa deve tornar-se estilo de vida (coração puro) sob pena de constituir-se apenas uma manifestação de intelectualismo e intimismo.
2. Com uma linguagem e formas diversas, estes mesmos valores são encontrados na Tradição do Carmelo, apesar dos condicionamentos da antropologia dualista.
- O autor da Instituição dos primeiros monges traça o itinerário contemplativo do Profeta Elias com a finalidade de levar à caridade.
- João da Cruz apresenta um itinerário espiritual, colocando a experiência contemplativa na perspectiva do encontro com o Amado, sendo este itinerário inserido numa dimensão comunitária e eclesial.
- Tereza de Ávila propõe a experiência contemplativa como um itinerário de oração no qual o fiel entre em comunhão de amizade com Deus. Esta comunhão é ação divina transformante da vida do fiel em vida teologal (fé, esperança e caridade com abertura para o sentir e servir eclesial).
- Maria Madalena de Pazzi, sente a experiência contemplativa como caminho que conduz ao amor em direção a Deus e ao próximo e à cooperação ativa ao projeto divino de salvação.
- Tereza de Lisieux, compreende e vive a experiência contemplativa como “pequena via” (deixar-se guiar por Deus), para amar no Amor de Deus em Cristo. Esta “pequena via” dilata seu amor à Igreja e à solidariedade para com os pecadores.
- Elizabeth da Trindade compreende e vive a experiência contemplativa como culto existencial; ser “louvor de glória”, espelho vivo da presença do Deus Trindade.
- Tito Brandsma concebe a experiência contemplativa como “caminho de encarnação na história”; místico é aquele que se insere na história e “vê” nela a presença de Deus.
- Edith Stein compreende a experiência contemplativa como “caminho pascal”; deixar-se conduzir por Deus pelo caminho da Cruz e Ressurreição.
3. Atualmente a experiência contemplativa se encaminha mais para nutrir-se da Palavra de Deus e da Liturgia; está atenta aos “sinais dos tempos”; traduz-se através dos acontecimentos da história e nos caminhos do povo de Deus.
Frei Egídio Palumbo, O. Carm.
(Publicado no Jornal Diário do Noroeste no dia 22/10/2006.)