7. Tal cognição acontece no primeiro encontro da pessoa com Deus. Neste encontro a pessoa também conhece de maneira absoluta o “valor” de sua vida vivida, quando se aplicam a esta vida os critérios de Deus.
Tal cognição plena sobre a sua vida vivida, possibilita a pessoa humana conhecer esta vida vivida em todas as suas facetes. A esta tomada de consciência se acrescenta ainda o fato de a pessoa humana no seu primeiro encontro com Deus na morte ter mais uma outra ampliação de sua consciência. Esta lhe possibilitará conhecer a sua vida vivida a partir dos critérios e os paradigmas de Deus.
8. Neste primeiro encontro com Deus a pessoa é aquela personalidade que fez de si na vida.
Em todas estas experiências de cognição e também no seu primeiro encontro com Deus, a pessoa não é alma sem estrutura. Ela é aquela personalidade com aquele caráter que formou de si no decorrer da vida. Uma pessoa que se fez personalidade orgulhosa, agora é orgulhosa, e uma pessoa que se formou pessoa humilde, agora é humilde. É com as características adquiridas e formadas na vida que a pessoa agora se vê confrontada com Deus e as suas propostas.
9. Juízo Particular
A conscientização junto com Deus e na presença de Deus sobre o “valor” ou o “desvalor” da vida vivida, quando se aplicam a ela os critérios deste Deus, é a experiência daquilo que na linguagem tradicional foi chamado de “JUIZO PARTICULAR”. Isso significa que não é Deus que julgará a pessoa, assim como no imaginário religioso tradicional se apresentou em geral a experiência de Juizo Particular. É muito mais assim que a pessoa humana ela mesma junto com Deus e a partir dos parâmetros de Deus vai julgar a sua vida, percebendo em que medida esta vida correspondeu aos parâmetros de Deus e em que medida não correspondeu.
10.Juízo Final. Não é um segundo juízo depois do Juízo particular, mas um outro enfoque do primeiro encontro com Deus.
Esta tomada de consciência não incluirá somente a conscientização de caráter pessoal sobre a sua vida vivida. Fazem parte dela também as dimensões sócio-estruturais e históricas da vida vivida e da história como um todo. A Pessoa que na sua morte saiu das suas ligações no tempo e está numa dimensão sem tempo, percebe num único momento atemporal toda a história do mundo. Percebe as conseqüências históricas de sua própria vida além de sua morte, mas percebe também junto com todas as pessoas que jamais viviam em que medida as estruturas que no decorrer da história deste mundo foram estabelecidas correspondiam aos critérios de Deus. São estes alguns elementos daquilo que a Igreja chama de “Juízo Final”.
11.Purgatório, a última oferta da graça de Deus que abre a oportunidade para uma última conversão e evolução.
Purgatório é uma das concepções muito interessantes do conteúdo escatológico da nossa fé. É uma pena que por causa do antigo imaginário de um lugar com fogo, muitas pessoas deixaram de acreditar naquilo que a Igreja chama de purgatório. Como o Papa João Paulo II dizia em 4 de agosto de 1999, o nome de Purgatório “não significa um lugar, mas uma situação”. É a situação existencial daquele que na morte percebe em que medida a sua personalidade formada no decorrer de sua vida não corresponde aos critérios e aos parâmetros de Deus. Neste momento na morte, Deus oferece a cada pessoa mais uma última e definitiva oportunidade de converter a sua personalidade para que esta corresponda aos parâmetros dele. Deus oferece uma última possibilidade para a pessoa evoluir e tornar-se pessoa plena.
Conforme a personalidade que esta pessoa formou de si mesma no decorrer da vida, a adaptação de sua personalidade aos critérios de Deus será mais ou menos difícil, mais ou menos dolorosa. É esta dor que na tradição se chama a “dor do Purgatório”. É a dor de encontrar-se com o amor de Deus e de constatar quão pouco na vida se correspondeu a este amor. É a dor de uma última conversão através da qual a pessoa na morte ainda pode adaptar a sua personalidade aos critérios de Deus. Isso implica entregar-se totalmente a Deus, aceitar que Deus haja conforme os parâmetros dele, admitir talvez que muitos dos critérios e parâmetros aos quais a pessoa seguiu na vida eram errados, porque não correspondiam àqueles de Deus.
Uma tal conversão pode doer, e esta dor é tanto mais intensa quanto menos a pessoa já na vida adaptou a sua personalidade aos parâmetros de Deus.
Renold Blank