Temos alguns desafios que se apresentam às consciências no anuncio da fé.
O primeiro desafio: é o do mundo moderno, nascido mais ou menos há dois séculos. Mundo moderno é uma expressão clássica do filósofo Kant que consiste na maturidade da humanidade. Seus três grandes pilares são a razão, a liberdade e o individuo como ponto de partida. Diante da fé, isto significou uma mudança muito grande. Claro, as mudanças históricas sempre são muito lentas, porém é uma humanidade que se distancia da proteção da fé cristã, socialmente falando, e caminha mais autonomamente. É um processo que desde que nasceu sempre tem caminhado. Este desafio está presente hoje e o vemos muito claramente sobretudo nos hemisférios do Norte, particularmente na Europa.
A mentalidade moderna e pós-moderna a encontramos também nos países pobres, nas grandes cidades dos países pobres, nos ambientes intelectuais, universitários, numericamente menores, porém influentes.
Está entrando através da facilidade da comunicação, como internet. A Igreja católica respondeu com dificuldades à Modernidade, entretanto as Igrejas protestantes aproximaram-se mais da Modernidade. A Teologia Moderna, desenvolvida desde o Concílio Vaticano II, é a resposta a essa modernidade, porque a direção da fé não pode limitar-se a negar o novo campo de interpretação da fé.
Um elemento da Modernidade, é a Economia globalizada. QUE SIGNIFICA TOMAR A PERSPECTIVA DO POBRE NO ANUNCIO DA FÉ NESTA ÉPOCA DE ECONOMIA GLOBALIZADA?
O anúncio da fé usa uma linguagem e não podemos utilizar uma linguagem que não é compreensível para as pessoas de hoje.
Do ponto de vista do pobre fazemos uma pergunta muito simples, que tem sua idéia no livro do Êxodo: “Aonde dormirão os pobres no mundo que virá? Assim como é feita esta pergunta, não a encontramos no êxodo, porém o conceito não muda: QUE ACONTECERÁ AOS HOMENS NESTE MUNDO FANTÁSTICO PARA O QUAL CAMINHAMOS?
À globalização opõe-se o movimento anti-globalização que mudou e agora tem uma maneira de falar muito mais justa: OUTRO MUNDO É POSSÍVEL A globalização é um fato e ir contra a globalização é como ir contra a energia elétrica: não tem nenhum sentido. Podemos utilizar a energia elétrica para ter luz ou para matar alguém. O mesmo vale para a globalização. O problema está no uso. Certamente a globalização está ampliando a distância entre pobres e ricos e está fazendo pensar que não é possível outro mundo.
A estes fatores, seguem-se outros, a Bioética, a Imigração... COMO ENCONTRAR A LINGUAGEM, APROPRIADA PARA ANUNCIAR O EVANGELHO NUMA SOCIEDADE ASSIM MARCADA POR DIFERENTES FATORES?
A segunda direção: é o mundo da pobreza, que não tem mais de quarenta anos como direção. Antes era um problema social e não se pensava numa direção para anunciar a fé e tão pouco se pensava na fé desde a pobreza. O mundo da pobreza como direção ao anúncio da fé está somente na metade do século XX e um dos primeiros que falou disto foi João XXIII, que disse: “Frente aos paises subdesenvolvidos a Igreja é a Igreja de todos e de modo especial, a Igreja dos pobres”. A pobreza tem causas, não é um infortúnio, um destino, se não uma condição que pode ser mudada. Isso muda muito a maneira de entender a relação com os pobres.
Certamente frente aos pobres há algo que segue sendo importante, que é o que chamamos a ajuda, a assistência ao pobre, porém hoje em dia está claro que é insuficiente. Insuficiente não quer dizer que não seja necessário. Hoje estar com o pobre significa ir contra as causas da pobreza. Isto é o que postulou a Teologia na América Latina e o que recolheu Medellín: compromisso de pobreza é um compromisso de solidariedade com os pobres e de luta contra a pobreza.
O terceiro desafio é a nova consciência que temos do pluralismo religioso.
O núcleo temático da V Conferência do CELAM: “Discípulos e missionários em favor da vida” é alentador e impulsiona a atividades concretas. Todo o Documento é perpassado por este binômio que deverá iluminar o agir pastoral dos próximos tempos.
Frei Filomeno dos Santos, O Carm.