No mundo de hoje, o enunciado que de certo modo é característica desta nossa época, é de que: “Feliz é quem tem muitos bens, tem uma posição social de destaque, que pode desfrutar dos prazeres da vida, realiza-se individualmente; saborear até a exaustão a vontade, o mundo e as ofertas da vida, procurar o céu aqui e em nada se deixar inibir por nenhum escrúpulo.
“Erguendo os olhos para os seus discípulos...” São pobres, famintos, que choram, odiados e perseguidos (Lc.6,20ss) são características daqueles que passaram a seguir Jesus e se tornaram a sua família.
Na perspectiva da comunidade dos discípulos de Jesus, as bem-aventuranças são um paradoxo – os critérios mundanos são subvertidos, desde que as coisas sejam vistas na perspectiva correta, nomeadamente a partir do valor de Deus, que é diferente dos valores do mundo. As bem-aventuranças são promessas nas quais resplandece a nova imagem do mundo e do homem, que Jesus inaugura, a “inversão dos valores”.
Quando o homem começa a ver e a viver a partir de Deus, quando ele se encontra na comunidade caminhando com Jesus, então ele vive com base em novos critérios. A felicidade muda o seu rumo e direção.
Cristo crucificado é o justo perseguido, do qual falam os cânticos do Servo de Deus. As bem-aventuranças é um convite para o seguimento do crucificado, dirigido a cada um e a toda a Igreja.
“Quem é que pode subir a montanha do Senhor, quem pode permanecer no seu lugar santo? Quem tem as mãos limpas e um coração puro, quem não mente, nem faz um juramento falso”. (Sl.24,3ss)
Perguntar por Deus, procurar o seu rosto – aqui está a primeira e fundamental condição para a subida, que conduz ao encontro com Deus.
Veremos Deus se entramos no “pensamento de Cristo” (Fl.2,5). A pureza de coração acontece no seguir os passos de Cristo, no ser um com Ele “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo quem vive em mim...” (Gl.2,20).
E aqui aparece agora algo de novo: a subida para Deus acontece precisamente na descida ao serviço humilde, a descida ao amor, que é a essência de Deus, e, portanto, a verdadeira força purificadora, que capacita o homem para conhecer Deus e para vê-lo.
Em Jesus Cristo, Deus se revelou na descida: “Ele era igual a Deus, mas não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus, mas despojou-se de si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante ao homem... Humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, até a morte na cruz. Por isso Deus O exaltou acima de todas as coisas...” (Fl.2,6-9) Estas palavras assinalam uma decisiva virada na história da mística. Mostram o que é novo na mística cristã, que vem da novidade da revelação em Jesus Cristo. Deus desce até a morte na cruz. É precisamente deste modo que se revela na sua verdadeira divindade.
A subida para Deus acontece ao ir com Ele nesta descida. Para subir a Deus é necessário ir com Jesus na cruz, isto é, descer no amor, na obediência e servir aos irmãos como Jesus no lava-pés, nisto as bem-aventuranças são transposição da cruz e da ressurreição para a existência do discípulo.
Aos olhos do mundo o ideal cristão parece frustrar os anseios do homem de felicidade, no entanto, ele é realmente o caminho que conduz à elevação da vida, somente no caminho do amor, cujas sendas são descritas no Sermão da Montanha, (bem-aventuranças) se abre a riqueza da vida, a grandeza da vocação humana e o caminho de uma espiritualidade correta.
Frei Filomeno dos Santos O.Carm.