“Precisamos de Santos que estejam no mundo;
e que saibam saborear as coisas boas e puras
do mundo, mas que não sejam mundanos” (João Paulo II).
Essa frase de João Paulo II revela plenamente o sentido da santidade na vida cristã. O nosso Beato Tito Brandsma, como vimos já na semana passada, é um grande exemplo disso, pois foi uma pessoa que esteve no mundo, saboreou o mundo, mas não foi do mundo. Seus passos de amor ficaram gravados nos corações daqueles que o conheceram. Toda sua vida foi um exercício de oração contínua e de vivência íntima com a Eucaristia, como ele mesmo escreve: “A Eucaristia é a força que nos permite chegar a contemplação”.
Além de grande frade carmelita foi uma figura marcante em seu tempo. Na época da ocupação Nazista na Holanda, um conflito de consciência ameaçava os leigos e, especialmente os jornalistas católicos. Frei Tito achou que o momento havia chegado: era hora do clero lutar na linha de frente como um pastor que vê seu rebanho ameaçado. Por isso não mediu esforços para defender esse povo, e assim pode provar que a luta por um mundo melhor, por justiça e pela liberdade depende de ações de homens corajosos e fiéis ao projeto de Deus, fortalecidos pela Eucaristia.
Em 1939, em um de seus discursos aos habitantes de Oss (Holanda), ele diz: “De que é que temos medo? Da morte? Da guerra? Muito pior que a morte é o pecado! Não nos preocupemos demais, continuemos confiando em Deus! Se Deus está conosco, quem estará contra nós? A opção de princípios existe. Pela confissão destes princípios sofro alegremente tudo até as últimas conseqüências. Minha vocação pela Igreja e pelo sacerdócio me deu tanta satisfação e alegria que em troca recebo com alegria o que for desagradável. Aliás, sei que estou totalmente entregue às mãos de Deus, e quem nos separará do amor de Deus?”
É nesta bela profissão de fé que este frade revelou toda sua confiança em Deus. A Eucaristia em sua vida era geradora deste espírito de bondade e mansidão. A vida eucarística o transformou em um profeta, que contemplava as pequenas coisas como grandes obras de Deus, e mesmo assim isso nunca o afastou do mundo, ao contrário o aproximava mais e mais.
Ele mesmo disse: “Para mim, a melhor parte do dia é a missa”. Isso revela o profundo valor que o sacrifício eucarístico tinha em sua vida, pois abastecido pelo corpo de Cristo ele tinha a coragem de enfrentar o mundo e ganhá-lo para Cristo.
Da mesma forma nós somos chamados a esta vida eucarística, pois Tito era totalmente humano como nós, tinha problemas como nós, dores, angústias e sofrimentos, mas tudo isso não o afastava de Deus, e sim o aproximava. Ajoelhar-se diante dos irmãos para ajudá-los é ajoelhar-se diante do rosto de Deus. A nossa comunhão deve ser entendida como uma partilha que ajuda a concretizar o projeto de Deus aqui na terra.
Esta parte do poema composto por ele na prisão de Scheveningen diante da imagem de Cristo, revela a grandiosidade de seu exemplo mostrando a nós como a Vida Eucarística nos leva a ver o mundo com os olhos de Deus:
“Ó Jesus quando te contemplo”,
eu redescubro, a sós contigo,
que te amo e que teu coração
me ama como um dileto amigo
Na minha dor, me rejubilo:
Já não a julgo sofrimento,
Mas sim predestinada escolha
Que me une a ti neste momento
Pois de mim sinto-te tão próximo
Como jamais antes senti.
Doce Jesus, fica comigo,
Que tudo é bom junto de ti”.
A Vida Eucarística é o mais claro chamado à santidade, este oferecido gratuitamente a nós, basta abrirmos a Deus o nosso coração e deixá-Lo agir em nós! A Eucaristia nos dá a força para contemplarmos e agirmos, pois como diz São Paulo: o que seria da Fé se não tivesse também as obras?
Frei Klenio P. Gonçalves, O.Carm.