COMUNHÃO
 

Em uma sociedade tão individualista com a nossa, uma das coisas mais chamativas para aqueles que observam nossa vida é o fato de que pessoas de mui diversas procedência, idade, forma de pensar, ect., possam viver juntas. A vida em comunidade é um dos traços essenciais da vida religiosa e da vida carmelita. Nos últimos anos se insistiu muito no pano de fundo bíblico de nossa Regra e se destacou a influencia que tem a comunidade apostólica de Jerusalém, descrita no livro dos Atos dos Apóstolos, na arquitetura espiritual da mesma. É a comunidade modelo para toda comunidade cristã e de forma especial para a comunidade carmelita. Quanto mais nos assemelharmos àquela comunidade (que tinha tudo em comum, que celebrava com alegria – agallíasis – e simplicidade a fração do pão, que perseverava na oração...), melhor desempenharemos a função icônica que tem a vida religiosa: ser sinal, testemunho, expressão, o ícone da vida trinitária, da comunidade de amor, da koinonia que deve ser o estilo de vida próprio do cristão.

Este estilo de vida comunitário, comunial, é em certo modo um sinal contra-cultural. Tudo convida ao individualismo, à satisfação pessoal, ao privado e inclusive ao egoísta. Também nós, ainda que vivendo em comunidade, devemos estar atentos para que esta mentalidade não entre em nossas casas e em nossos corações. Não se trata somente de viver “em comunidade” (com uma série de atos e de espaços comuns), mas de viver comunitariamente, quer dizer, com um só coração, em verdadeira fraternidade.

Esta vida comunitária, a comunhão enfim, não supõe absolutamente uniformidade. Somos diferentes, em alguns temas pensamos de forma diferente, existem diversas sensibilidades e tendências, temos distintas idades e pertencemos a gerações diferentes, às vezes, inclusive, falamos idiomas diferentes e procedemos de culturas muito distintas... e apesar disto somos chamados a formar uma verdadeira comunidade fraterna. Seria um escândalo (no sentido mais autêntico da palavra) que dois carmelitas não pudessem viver juntos por motivos ideológicos, ou raciais ou – pior ainda – por motivos religiosos. A diversidade, o respeito mútuo, a aceitação do outro em seu ser distinto do meu, tudo isto nos enriquece sobremaneira, nos mantém abertos, flexíveis, maleáveis, jovens... A pessoa que se fecha em seu modo de pensar, que menospreza outros modos de viver o carisma carmelita e não vê nos demais nada de bom... enquista-se, se empobrece, se radicaliza em seu fechamento.

Esta profunda unidade na diversidade se faz patente e efetiva na celebração da Eucaristia. A verdadeira comunhão rompe as barreiras, elimina rancores, cria uma comunhão de vida que nasce do mistério pascal. Aí está o caráter provocativo (a anámnesis como “memória subversiva”de que têm falado alguns teólogos). Se a Eucaristia comunitária se celebra com honestidade e humildade, se não se converte em uma rotina ou somente em uma atividade pastoral... nos leva necessariamente para um estilo de vida mais comunial e mais comunitário.
       
Frei Fernando Millán Romeral, O.Carm. Prior Geral