A Ressurreição na Liturgia e Espiritualidade Carmelitana.
 

A liturgia praticada pelos carmelitas, desde o seu início, tem um forte aspecto de ressurreição, influenciada pelo Rito do Santo Sepulcro praticado pelos Cônegos Regulares de Santo Agostinho.

Segundo um dos principais liturgista da Ordem dos Carmelitas. Siberto de Beka, a Ressurreição do Senhor é um tema que perpassa continuamente durante o ano litúrgico, com exceção do período que vai desde o Advento até a Páscoa. Segundo Siberto, a celebração da Ressurreição deveria ser integrada todos os dias nas vésperas e matinas, e consistia numa antífona, num salmo e numa oração da liturgia pascal.

Na antiga liturgia dos Carmelitas é notável o fato de que, à imitação do que era feito no Rito do Santo Sepulcro, o ano litúrgico terminava no último domingo antes do Advento com a solene comemoração da Ressurreição do Senhor.

Em resumo, podemos dizer que ao longo de todo o ano, desde a Páscoa até ao Advento, a Ressurreição ocupava um lugar importante na oração litúrgica dos Carmelitas.

Um outro elemento que manifesta o aspecto da Ressurreição na liturgia dos Carmelitas, é o modo de encarar a Cruz. Ela foi vista como a cruz triunfante por meio da qual veio a salvação e onde Cristo reina como um rei. Com São Francisco de Assis e Bernardo de Claraval o modo de entender a cruz sofreu uma mudança decisiva. A ênfase já não era no Cristo crucificado vencedor da morte, mas no Cristo terrestre, que sofreu e morreu na cruz. O Cristo que viveu e triunfou na cruz da glória deu lugar a um Cristo que sofreu uma morte dolorosa na cruz. Apesar disto, não encontramos nenhum sinal na liturgia dos Carmelitas de que o Cristo sofredor tenha começado a ter lugar importante.

Um outro aspecto ressurrecional na espiritualidade dos Carmelitas está na mudança das cores da capa branca. O antigo manto de duas cores mudou para branco. Esta mudança aconteceu para que os Carmelitas pudessem mostrar claramente aos crentes a paz eterna e a glória da Ressurreição. Com isto se estabelece uma relação explícita entre a Ressurreição e o seu compromisso de vida.

Na Regra, que o patriarca Santo Alberto deu aos Carmelitas, não há, de maneira explícita, prescrições pormenorizadas de como devemos celebrar nossa liturgia e nem há alusões concretas à Ressurreição de Jesus. Mesmo assim, há certas passagens que falam da oração litúrgica, da freqüência da mesma, do Ano Litúrgico, do lugar onde a oração litúrgica se deve realizar. Há outros aspectos da Regra que se referem, por exemplo, ao domingo como dia semanal da comemoração da Ressurreição em que os irmãos devem tratar da observância d ávida comum e do bem espiritual das pessoas. Encontramos, sim, vários aspectos escatológicos espalhados na Regra.

Concluindo, podemos dizer que uma das características mais notáveis da antiga liturgia carmelitana era a comemoração incessante da Ressurreição do Senhor. A confrontação constante, na liturgia, com a Ressurreição do Senhor através de missas votivas e celebrações litúrgicas ao longo de todo o ano que culmina na comemoração solene da Ressurreição no último domingo antes do Advento, não deixava espaço para a idéia de uma Ressurreição estática ocorrida em séculos passados. Pelo contrário, o dinamismo do Christus Resurgens, de Cristo Ressurgindo, presente durante todo o ano litúrgico, impõe-se irresistivelmente aos celebrantes da liturgia Carmelita, acompanha-os durante o ano litúrgico e dá-lhes a oportunidade, todos os dias, de sair com Ele da letargia da morte.

Infelizmente, ao longo de muitos séculos, a relação com a antiga liturgia da Ressurreição tem vindo a enfraquecer-se tendo desaparecido quase por completo nos últimos anos. Seria bom que a Ressurreição ocupasse de novo um lugar importante na liturgia Carmelita.
                        
Uma feliz e santa Páscoa a todos.

Frei Josué Ghizoni O. Carm.

(Publicado no Jornal Diário do Noroeste do dia 08/04/2007)