Quem é o Culpado
 

Jesus livremente decidiu seguir para Jerusalém seguido pelos seus discipulos( Lc.9,51); pouco antes ele havia dito que o Filho do Homem subia para Jerusalém;seria rejeitado pelos anciãos, ia ser crucificado, sofreria muito, mas   ao terceiro dia ressuscitaria.( Lc.9,22).

As manchetes dos jornais e dos meios de comunicação divulgam a polêmica do filme: “A Paixão de Cristo”, onde na visão do cineasta Mel Gibson, os culpados da morte de Jesus foram os judeus.

Afinal quem foi o culpado ou culpados da morte de Jesus?

Era vontade do Pai que o Filho sofresse desse modo para nos salvar? Era necessário o derramamento de sangue do Filho para que o Pai se contentasse? Esta imagem de Deus parece a de um deus pagão que só se satisfaz com o sofrimento, como que para se vingar. Esta imagem não corresponde à imagem de um Deus de Amor, de Bondade, de Misericórdia revelado por Jesus.

O que o Pai podia querer é que o Filho fosse aceito e que a mensagem do Reino de Deus fosse aceita pelos homens e, num processo de conversão, acontecesse  uma mudança dos corações. Mas como Deus não força ninguém a aceitá-Lo, nem usa o seu poder para dominar, o que Ele podia fazer era uma proposta que livremente o homem devia aceitar, mas também esta aberta à  possibilidade de rejeição.

Nós sabemos que a segunda hipótese é o que aconteceu, e que a rejeição de Jesus desembocou na sua morte.

E quem foi o culpado de sua morte? Ou os culpados?

Jesus entra em Jerusalém, e é aclamado como o Messias, o Filho de Davi que vem! Mas o confronto com as autoridades civis e religiosas que mantinham uma sociedade injusta e excludente,  contraria à sociedade proposta por Jesus, “O Reino de Deus” estava delineado.

Jesus é acusado, preso e levado a julgamento. Qual a acusação? A acusação que fazem é que Ele, sendo homem, se diz o Filho de Deus, contrariando a Lei de Moisés.

Quem o julga é o Sinédrio, que o considera culpado e merecedor de morte, mas como os judeus não podiam condenar ninguém à morte criam de certo modo um falso testemunho de que Jesus era um agitador, revolucionário contra o Império romano, e por isso levam-no ao tribunal romano, representado por Pilatos. Então podemos dizer que o primeiro culpado pela morte de Jesus é o Sinédrio.

Pilatos faz o julgamento de Jesus e percebe que as questões apresentadas são de cunho religioso e, de certo modo, considera Jesus como inocente; mas como a pressão dos judeus aumenta, Pilatos se omite e condena Jesus à morte, mesmo sabendo que ele era inocente, e mais ainda, acrescenta o açoite, pena que era aplicada por crimes contra o império romano e que servia como repressão às revoltas das províncias. Como conclusão, também são culpados os romanos. O título: “Rei dos Judeus” ,que foi fixado sobre a cruz como a causa da sentença,  mencionado em todos os Evangelhos, ainda reforça esta responsabilidade romana. Pilatos condenou Jesus à morte, como pretendente ao trono judeu e como rebelde contra a ordem e a tranqüilidade da “Pax Romana”.  E é certo que a flagelação e o sofrimento no caminho para o Calvário enfraqueceram Jesus e apressaram a sua morte.

Os textos bíblicos da Paixão e da morte de Jesus informam que Ele morreu na cruz. Ele morreu como criminoso e subversivo. Mas realmente Ele foi subversivo?

As respostas estão nos Evangelhos. Eles revelam que a missão de Jesus foi realizar a vontade do Pai, o Deus da Vida.

Ele pregou um mundo plenamente humano, no qual tudo é de todos e todos têm sua vez e voz, como filhos e filhas do mesmo Pai. Esta fidelidade à missão confrontou-se com a sociedade injusta. Jesus foi subversivo na medida em que pregou um relacionamento social e religioso baseado na liberdade e na justiça.

Para os romanos e para a elite da Palestina, que eram os “ donos do poder “, Jesus foi subversivo, porque pregou uma sociedade fraterna e igualitária, invertendo a ordem e o sistema da sociedade injusta. Por isso, o destino de Jesus já estava traçado desde a sua entrada em Jerusalém: um confronto direto com as autoridades e a conseqüente morte.
Isto nos mostra que a paixão e a morte de Jesus foram a conseqüência de uma vida levada ao seu extremo. Sua cruz é o resultado de sua fidelidade à missão do Pai e compromisso com seus irmãos até o fim, como Messias “Servo Sofredor” e Servidor.

A cruz é o resultado do que Ele pregou e do que Ele fez.

Devemos afirmar, com toda a clareza, que a morte de Jesus é uma conseqüência histórica do tipo de vida assumido por Ele  - Messianismo de serviço em conformidade com a vontade do Pai – certamente Jesus assume e vive a vocação de servidor porque esta é a vontade do Pai. “Ele se fez obediente até a morte e morte de cruz” ( Fl.2,6-8).

Todavia a rejeição deste tipo de vida é da responsabilidade de seres humanos concretos.

Os próprios discípulos abandonaram Jesus, um O vendeu por 30 moedas de prata e Pedro O negou. No primeiro momento, não entenderam o Messianismo sofredor de Jesus.

E nós também hoje quando O rejeitamos e ao Seu Projeto, também nos tornamos culpados de Sua morte...

Frei Filomeno dos Santos O. Carm.