Quanto mais perto da fonte mais límpida a água, quanto mais se distancia mais torna suja e contaminada. Quanto mais próximo de Deus, mais posso experimentar o seu amor e receber as suas graças.
Nesta caminhada da quaresma somos convidados a passar de uma proximidade de Deus; por práticas externas, de uma certa acomodação na vivência religiosa, de um indiferentismo na relação com Deus, ou até de um afastamento pelos apegos, vícios e pecados, a buscar nos exercícios da quaresma uma conversão interior que nos leve à profundidade da fé.
Por isso fazemos a experiência do “deserto”: “O Senhor nos conduz ao deserto para nos falar ao coração” (Os.2,11). Na solidão do deserto desmascarar os nossos apegos e pecados e deixar-nos pelo Espírito iniciar um processo espiritual de purificação, somos esvaziados de nós mesmos, de nossos desejos e ambições, abandonarmos os falsos ídolos, para que possamos fazer a experiência do Amor de Deus que transborda. Este amor esvazia-nos de nossos “modos humanos” limitados e imperfeitos de pensar, amar e agir, e transforma-os em “modos divinos”. (Constituições dos Carmelitas nº 17, São João da Cruz).
Encontramos com Deus na oração que nos transforma, enxergamos o outro com o olhar de Deus, que nos faz irmãos e fraternos e nos impulsiona ao serviço gratuito e desinteressado que só a pessoa contemplativa pode oferecer.
A escuta orante da Palavra que deve “habitar abundantemente na boca e no coração”. Deus vem à nossa procura, atrai-nos para si, e o Espírito solicita-nos a dirigir a atenção para Ele, a escutar sua voz, a acolher sua Palavra, a abri-nos à sua ação transformante.
A nossa busca de Deus é, de fato resposta à sua voz e o diálogo amigável, (Santa Teresa de Jesus Vida 8, 5).
Esta abertura à ação de Deus em nós, traz uma mudança em nós, do “Homem Velho” para o “Homem Novo” e revestimo-nos de Cristo.
Deste modo passamos da proximidade com Deus, para a profundidade de uma comunhão amorosa que nos dará experimentarmos o Senhor Ressuscitado e celebrarmos a Páscoa em profundidade. De estarmos, não só na proximidade do “poço” mas experimentarmos d’Água Viva que jorra do poço.
Frei Filomeno dos Santos O. Carm.
(Publicado no Jornal Diário do Noroeste do dia 25/03/2007)