A experiência do deserto marcou a caminhada de Elias. Ele enfrentou o deserto de Carit (1 Rs.17,5), o deserto de Beersheba (1 Rs.19,3), o deserto de Horeb (1 Rs.19,8).
Deserto, não só como lugar geográfico, mas também como experiência interior. Elias teve momentos de não saber, de estar perdido, de ter medo, de achar que tudo estava terminado, de querer fugir e morrer, de pensar só em comer e dormir.
O DESERTO INTERIOR manifestou-se sobretudo no fato de ele procurar a presença de Deus nos sinais tradicionais (terremoto, vento, fogo) e de descobrir que estes sinais já não revelavam mais nada a respeito de Deus. Eram lâmpadas que já não acendiam. Quem o procurasse por aí, já não encontraria (1 Rs.19,11-12).
O DESERTO era também o lugar de origem do povo, da volta às fontes em época de crise, onde se recuperavam a memória e a identidade; o lugar para onde o povo escapou para a liberdade, onde morreram os restos da ideologia do faraó, e onde o povo se reorganizou; o lugar da longa caminhada, quarenta anos, onde morreu uma geração inteira; o lugar do murmúrio, da luta, da tentação e da queda; o lugar do namoro, do noivado, da experiência de Deus, da oração. O deserto fez Elias se reaproximar da origem do povo. Os 40 dias lembram os 40 anos.
No deserto Elias experimentou os seus próprios limites. Não chegou a perder a fé, mas já não sabia como usar a fé antiga para enfrentar a situação nova. Foi momento de viver e sofrer a crise do próprio povo. Por isso mesmo, ao superar a sua crise, ele estava redescobrindo o sentido de Deus para a vida do povo.
O Senhor nos conduz ao DESERTO PARA NOS FALAR AO CORAÇÃO! (Os. 2 16) Senhor conduzi-nos ao DESERTO para que possamos na solidão desmascarar os nossos apegos e pecados e deixar-nos por teu Espírito, iniciar um processo de purificação. “Jesus tinha a condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (Fl.2, 6-8 ).
Senhor, o Carmelo não nos pertence, mas no Carmelo pertencemos a Ti. Esvazia-nos de nós mesmos, de nossos desejos e ambições, para que possamos fazer a experiência de que, NO VAZIO DO DESERTO, TU NASÇAS EM NOSSO CORAÇÃO.
Maria nossa mãe, irmã e companheira, ensina-nos a fazer como tu fizeste, a dizer cada dia o nosso “sim”, eis-me aqui Senhor!
Frei Filomeno dos Santos O. Carm.
(Publicado no Jornal Diário do Noroeste do dia 04/02/2007)