Por isso a memória do passado alimenta o presente, pois muitas vezes a situação de opressão, de sofrimento, de exílio se repete; por isso a memória ativa traz presente: “Deus salvou, libertou, restaurou a Vida, Ele pode agora agir do mesmo modo, Deus salvou outrora, Deus pode agora salvar também”. Por isso a esperança é a força, ou melhor, a energia que move os corações para abrirem-se à ação salvadora de Deus.
Olhando o tempo presente da realidade que nos cerca, as lamentações, clamores dos pobres, de uma sociedade consumista, que leva ao egoísmo, aos apegos a ídolos dos “tempos modernos”, o pessimismo escraviza o homem, aprisionando longe da meta para qual foi criado.
A proclamação do tempo do Advento nos aponta que “Jesus veio, vem e virá”. Somos convidados a refletir sobre estes três aspectos.
Jesus veio. É João Batista que nos serve de anunciador para este aspecto. Ele é a voz que clama no deserto e é ele que aponta a sua presença. João Batista vai dizer que ele está no meio de nós. Como Jesus já veio, sua proposta de vida já existe. Temos o caminho para seguir. Por isto que o Tempo do Advento é também tempo de conversão, tempo para se confrontar com a Palavra de Deus e perceber quais aspectos de nossa vida precisam ser endireitados.
Jesus vem. Somos convidados a contemplar a gravidez de Maria. É ela quem nos diz que Jesus vem agora dia 25. Celebramos o nascimento de Jesus como um acontecimento novo, como se Ele fosse nascer novamente dia 25, pois Maria vai dar a luz. Somos convidados a viver essa gravidez, como se cada um de nós fosse gerar o Salvador, fazer ele nascer em nossa vida, em nossa família e na sociedade. Preparemos a manjedoura para que ele possa nascer, principalmente em nosso coração.
Jesus virá. Virá no final dos tempos. Ninguém sabe o dia nem a hora. Por isto o alerta para estar atento, vigiando todo tempo. Isaías é considerado o evangelista do Antigo Testamento, por descrever com antecedência a obra redentora do Messias (Is.53,4-12). É ele quem anuncia este aspecto do Jesus que virá. Anunciou a primeira vinda e agora nos serve de base para permanecermos na expectativa da segunda vinda.
Uma profecia sempre indica ou revela um acontecimento futuro. Caberia ao Messias, ou, como o Profeta Isaías o denomina “Servo do Senhor” (Is.52,13), “Rebento de Javé” (Is.4,2), restabelecer a ligação entre o Criador e a sua criatura, rompida pelo pecado.
Uma vez, removido o pecado pelo “Servo do Senhor”, estava completada a obra da redenção.
Pela liturgia deste tempo somos pedagogicamente levados a lembrar, dia a dia, aos acontecimentos que preparam a chegada do Menino em Belém, para vivermos a expectativa de um novo parto da salvação de Deus em nosso tempo. Jesus já veio e realizou a salvação prometida e esperada, o Reino de Deus foi implantado na terra. Mas a realização plena dele ainda não aconteceu, já começou no aqui e agora do presente, mas se realizará no fim dos tempos. As profecias anunciam “o dia” que se refere aos dias que precederão ao Juízo Final. Então, o Senhor voltará e serão criados “novos céus” e “nova terra” e a utopia se realizará plenamente.
Somos convocados a sermos testemunhas da esperança, superando todo o pessimismo. Estejamos acordados e vigilantes, buscando a perfeição para que a vinda do Senhor nos encontre irrepreensíveis – cheios dos frutos da justiça. Proclamemos com toda a Igreja: “Vem Senhor Jesus, vem!”
Frei Filomeno dos Santos O.Carm.
(Publicado no Jornal Diário do Noroeste do dia 10/12/2006)