Regra do Carmo - Parte 3
 

Nesta terceira parte da Regra do Carmo, percebemos que: o seguimento de Jesus Cristo que o Carmelita busca como um ideal de perfeição, mas nesta busca descobre a sua fragilidade e de que a vida é uma luta.
Na formação do Homem Interior, a Regra apresenta as “Armas Espirituais”e os meios que ajudam nesta formação: O trabalho e o silêncio. Apresenta o prior como servidor dos irmãos e o respeito dos irmãos para com ele.

18. Visto que a vida humana na terra é uma tentação, e todos os que querem viver fielmente em Cristo sofrem perseguição, e como o seu adversário, o diabo, rodeia por aí como um leão que ruge, espreitando a quem devorar, procurem, com toda a diligencia, revestir-se da armadura de Deus, para que possam resistir às emboscadas do inimigo.

19. Os rins devem ser cingidos com o cíngulo da castidade, o peito protegido por pensamentos santos, pois está escrito: O pensamento santo te guardará. A couraça da justiça deve ser usada  como veste, a fim de que vocês amem o Senhor com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, e o próximo como a si mesmos. Sempre e em tudo deve ser empunhado o escudo da fé, com o qual possam apagar todas as flechas incendiárias do maligno, pois sem a fé é impossível agradar a Deus. O capacete da salvação deve ser colocado sobre a cabeça, para que esperem a salvação unicamente do Salvador, pois é ele que libertará o seu povo dos pecados. E que a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, habite abundantemente em sua boca e em seus corações, e tudo que vocês tiverem de fazer, seja lá o que for, que seja feito na Palavra do Senhor.

20. Vocês devem fazer algum trabalho, para que o diabo sempre os encontrem ocupados e não consiga, através da ociosidade de vocês, encontrar alguma brecha para penetrar em suas almas. Nisto vocês tem o ensinamento e o exemplo de São Paulo apóstolo, por cuja boca Cristo falava e que por Deus foi constituído e dado como pregador e mestre dos gentios na fé e na verdade. Se seguirem a ele, não poderão desviar-se. Ele escreve: em meio a trabalhos e fadigas estivemos entre vocês, trabalhando dia e noite, para não sermos um peso para nenhum de vocês. Não que não tivéssemos esse direito, mas queríamos apresentar-nos como um exemplo a ser imitado. Com efeito, quando estávamos com vocês, demos esta regra: Quem não quiser trabalhar, também não coma! Ora, temos ouvido falar que entre vocês há alguns que levam uma vida irriquieta, sem fazer nada. A esses tais ordenamos e suplicamos no Senhor Jesus Cristo, que trabalhem em silencio e, assim, comam seu próprio pão. Este caminho é santo e bom. É nele que devem andar!

21. O apóstolo recomenda o silêncio, quando manda que é nele que se deve trabalhar. E como afirma o profeta: a justiça é cultivada pelo silencio. E ainda: no silencio e na esperança estará a força de vocês. Por isso, determinamos que, depois da recitação das completas, guardem o silencio até depois da Hora Primeira do dia seguinte. Fora desse tempo, embora a observância do silencio não seja tão rigorosa, com tanto mais cuidado abstenham-se do muito falar, porque, conforme está escrito e não menos ensina a experiência: No muito falar não faltará o pecado; e: Quem fala sem refletir sentirá um mal-estar; e ainda: Que fala em demasia prejudica a sua alma; e o Senhor no Evangelho: De toda palavra inútil que os homens disserem, dela terão que prestar conta no dia do juízo. Portanto, cada um faça uma balança para as suas palavras e rédeas curtas para a sua boca, para que, de repente, não tropece e caia por causa da sua língua, numa queda sem cura que conduz à morte. Que, como diz o profeta, cada um vigie sua conduta para não pecar com a língua, e se empenhe, com diligencia e prudência, em observar o silencio pelo qual se cultiva a justiça.

22. Agora, você, irmão B., e quem quer que for indicado como Prior depois de você, tenham sempre em mente e cumpram na prática o que o Senhor diz no Evangelho: Todo aquele que entre vocês quiser tornar-se o maior, seja o seu servidor, e quem quiser ser o primeiro, seja o seu empregado.

23. E vocês, os demais irmãos, tratem o seu Prior com deferência e humildade, pensando, mais do que nele mesmo, em Cristo que o colocou acima de vocês, e que diz aos que estão à frente das igrejas: Quem ouve a vocês, é a mim que ouve, quem despreza a vocês, é a mim que despreza, a fim de que vocês não sejam condenados com réus por menosprezo, mas possam merecer por obediência a recompensa da vida eterna.

24. É isso que, com brevidade, lhes escrevemos com o intento de estabelecer para vocês a forma de conduta, segundo a qual deverão viver. Se alguém fizer mais do que o prescrito, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar. Use, porém, de discrição, que é a moderadora das virtudes.

Frei Filomeno dos Santos O.Carm.

 

(Publicado no Jornal Diário do Noroeste do dia 03/12/2006)